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Todo projeto de IA começa sem IA

Antes de abrir o computador, é preciso entender o problema. Como uma associação de pacientes de doenças raras me ensinou que o coração de qualquer projeto nunca é a tecnologia.

Trabalho com ciência de dados há 10 anos. Já montei modelos preditivos para grandes empresas, já dei aula de IA para turmas de MBA, já vi de perto projetos milionários falharem. E se tem uma coisa que aprendi em todos esses anos é: os projetos que dão errado quase nunca falham por causa da tecnologia. Falham porque pularam o começo.

Vou contar como estou aplicando isso agora, num projeto que é muito pessoal para mim.

Uma associação, uma doença rara e 15 anos de "não tenho tempo"

Eu sou paciente de angioedema hereditário (AEH), uma doença genética rara que causa inchaços imprevisíveis pelo corpo, incluindo vias aéreas. Pode ser fatal. São cerca de 3.000 pacientes diagnosticados no Brasil, mas estima-se que muitos mais existam sem diagnóstico.

Em 2010, ajudei a fundar a ABRANGHE, a Associação Brasileira de Angioedema Hereditário. Uma organização sem fins lucrativos que apoia pacientes, dissemina informação e conecta pessoas que muitas vezes passaram anos sem saber o que tinham.

Desde então, confesso: me comportei de forma passiva. Aplicava pouco dos meus conhecimentos como cientista de dados na associação. A justificativa? Além de ser portadora da doença, eu tenho emprego, família, amigos. Nunca "tinha tempo". E assim foram se passando os anos.

O dia em que perdemos tudo

Em dezembro de 2025, perdemos o acesso ao site da Abranghe e a todo o seu conteúdo. Anos de informação para pacientes, materiais educativos, referências médicas. Tudo inacessível.

E agora? Não tínhamos voluntário para refazer o site do zero. Se contratássemos uma agência, precisaríamos antes definir o conteúdo, o logo, as abas, a estrutura, validar tudo; um trabalho enorme que viria antes de qualquer desenvolvimento. Quem faria isso?

Foi aí que pensei: bom, se de qualquer forma precisamos definir o conteúdo e a estrutura, eu posso fazer isso. E posso usar IA para operacionalizar a criação do site.

E foi exatamente o que fiz. O novo site da Abranghe foi criado com IA, a partir do nosso desenho, do nosso conteúdo, das nossas decisões. A IA executou. Nós direcionamos.

Novo site da ABRANGHE — Associação Brasileira de Angioedema Hereditário
O novo site da ABRANGHE, criado com apoio de IA.

Economizei tanto tempo com o site que parei e pensei: e as outras dores da Abranghe? E os pacientes? Pacientes que chegam pelo Instagram com dúvidas sobre sintomas, pessoas querendo saber onde encontrar médicos especialistas, pedidos de informação sobre tratamentos, sobre como se filiar. Mensagens que se acumulam. Perguntas que se repetem. Respostas que precisam ser precisas, porque estamos falando de saúde.

De repente, depois de 15 anos, eu não estava mais sendo passiva. Estava enxergando como aplicar o que sei de verdade para ajudar.

Acharam que eu já ia começar com a IA?

Eu também gostaria. É tentador. Você tem a ferramenta na mão, acabou de ver ela funcionando no site, e quer resolver tudo de uma vez. Mas por experiência sólida, quanto mais tempo você investir no planejamento, com objetivos claros e entendendo as dores reais, mais chance de dar certo tem.

Eu já vi isso dar errado vezes suficientes. Em uma empresa em que trabalhei, passamos 3 meses construindo uma solução perfeita. Perfeita mesmo: código limpo, modelo robusto, tudo validado tecnicamente. Só que para o problema errado. Por um erro de comunicação e validação com a equipe de produto, resolvemos algo que ninguém precisava. Tivemos que mudar tudo e recomeçar o projeto do zero. Um dia conto mais sobre isso.

Então, antes de qualquer linha de código, fiz o que deveria ser o primeiro passo de qualquer projeto, de IA ou não: parei para entender o problema.

O framework: 5 perguntas antes de qualquer projeto

Ao longo da carreira, trabalhei com metodologias como o CRISP-DM (referência em projetos de dados) e o Data Product Canvas (mais orientado a produto). Ambas têm algo em comum: começam pelo entendimento do problema, não pela tecnologia.

Simplifiquei isso em 5 perguntas que uso como ponto de partida para qualquer projeto. Servem para IA, automação, dashboard, ou qualquer iniciativa que envolva dados e tecnologia.

Vou mostrar como apliquei cada uma no caso do site da Abranghe:

  1. Qual é a dor real?

    Não a dor genérica ("precisamos de IA"), mas a dor concreta. No caso da Abranghe: médicos e pacientes procuram informações sobre a doença na internet e não conseguiam encontrar a associação. Sem site, éramos invisíveis para quem mais precisava de nós.

  2. Quem vai usar a solução?

    Pacientes e médicos que precisam de um canal de contato com a associação e com especialistas. Muitos pacientes têm pouca familiaridade digital e chegam em momentos de crise. Isso muda completamente o design da solução.

  3. O que seria sucesso?

    Voltar a receber contato e fazer atendimento. Simples assim. Sem métrica sofisticada, sem KPI rebuscado: o sucesso era existir de novo na internet e ser encontrada por quem precisa.

  4. Que dados e recursos existem hoje?

    Temos telefone, e-mail e redes sociais (que precisam ser publicadas e divulgadas). Temos alguns voluntários, mas que precisam ser coordenados e gerenciados (outro ponto em que a IA pode nos ajudar depois). O conteúdo do site antigo estava inacessível.

  5. A solução precisa de IA?

    Não. O site só precisava ter o contato para emergências e links para as redes sociais. Esse era o coração. Outros conteúdos como centros de referência no Brasil, informações sobre a doença e materiais educativos são muito importantes, mas priorizamos o que era a maior dor: voltar a existir online. IA é ferramenta. Nunca o coração.

Percebe? A resposta para a pergunta 5 foi não. E está tudo bem. Nem todo projeto precisa de IA. O site foi resolvido com planejamento, conteúdo bem definido e uma ferramenta de IA para operacionalizar a execução.

E a IA generativa? Ela ajuda já nessa fase?

Sim, e essa é uma parte que pouca gente fala. Você não precisa esperar até a fase de "implementação" para usar IA generativa. Ela é uma aliada poderosa no planejamento:

Como uso IA generativa no planejamento:

Validar hipóteses: "Essas são as principais dores dos pacientes que identifiquei. Com base nesse contexto, quais outras dores posso estar ignorando?"

Refinar objetivos: "Meu objetivo é recriar o site da associação. Quais seções são essenciais para uma ONG de pacientes?"

Construir métricas: "Me ajude a definir métricas de sucesso para o novo site de uma associação de doenças raras."

Explorar alternativas: "Preciso mesmo de IA para isso ou existe uma solução mais simples que resolve?"

A IA generativa como parceira de pensamento é, na minha opinião, um dos usos mais subestimados. Não é sobre delegar a decisão; é sobre ter um interlocutor que te ajuda a pensar melhor.

No caso do site, a IA também ajudou a revisar o conteúdo, montar a estrutura do blog e subir tudo no servidor. A execução técnica que normalmente levaria semanas com uma agência foi feita em dias, porque o planejamento já estava claro.

Mas e o resto? As dores maiores?

O site resolveu a dor mais urgente. Mas quando parei para olhar o quadro completo, vi que havia muito mais por fazer:

Sem IA: organizar as perguntas frequentes em um documento acessível; criar respostas padronizadas para as 20 perguntas mais comuns; montar um fluxo de encaminhamento (dúvida médica vai para cá, filiação vai para lá).

Com IA: um assistente que responda perguntas frequentes com base em material validado (RAG, ou Retrieval Augmented Generation); triagem automática de mensagens por assunto e urgência; análise de sentimento para priorizar mensagens de pacientes em crise.

Com cuidado especial: qualquer resposta sobre sintomas ou tratamento deve encaminhar para um profissional de saúde. A IA nunca pode dar conselho médico. Isso é inegociável.

Visão do projeto Abranghe:

Fase 1: Recriar o site com informações essenciais e canais de contato (feito)

Fase 2: Organizar a base de conhecimento: FAQ, materiais, fluxos

Fase 3: Automatizar triagem e respostas básicas com automação + IA leve

Fase 4: Assistente inteligente com RAG sobre base médica validada, usando IA generativa

Fase 5: Análise de dados para entender padrões: quais dúvidas mais surgem, em que épocas, de quais regiões

A IA aparece. Mas não é o começo. E não é o centro. O centro são os pacientes e suas necessidades.

Por que estou contando isso?

Porque toda semana vejo no LinkedIn alguém anunciando que "implementou IA" em algum lugar. E quase nunca falam do que veio antes. Do trabalho invisível. Das perguntas difíceis. Do planejamento que não tem nada de glamoroso.

A verdade é: a parte mais importante de qualquer projeto de IA não tem nada a ver com IA. Tem a ver com entender gente. Entender processos. Entender o que dói. E ter a humildade de admitir que, às vezes, a solução certa é a mais simples.

IA é ferramenta. Uma ferramenta poderosa, sim. Mas ferramenta. O coração de qualquer projeto é, e sempre será, o problema que você está tentando resolver e as pessoas que você está tentando ajudar.

Aguarde: a IA vai entrar em cena

Esse é o primeiro artigo de uma série sobre como estou construindo um projeto de IA para a Abranghe, do zero, mostrando cada etapa. No próximo, vou mostrar como a tecnologia começa a entrar nas fases seguintes: escolha de ferramentas, arquitetura da solução e os primeiros testes. Acompanhe no LinkedIn ou no Instagram.

Nota de transparência: este artigo foi escrito por mim, com apoio de IA. A IA ajudou a revisar o texto, montar a estrutura do blog e subir tudo no servidor. As ideias, as experiências e as decisões são minhas. A IA operacionalizou.

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